As língua nossa, minhas,
não é só voz de Camões
pertence às plurais multidões
destes Brasis de entrelinhas
rurais, rurbanas, vizinhas
de Rui, de Machado e Mané,
de Patativa, do Assaré,
de Ascenso, Drummond e Bandeira.
Nossa língua é brasileira.
Vária e viva ela é!
Que delícia é a palavra
sem gesso e sem preconceito,
língua boa, sem defeito,
leve, livre, livra, lavra,
bebe a saliva sem trava
e o verbo é só sabor
de língua de toda a cor,
toda canto e toda idade:
língua macia que invade
verso e prosa, sem pudor.
Eu quero é sair para fora
subir para riba e falar
nas língua do meu lugar
das coisa do mundo. E agora
a minha expressão deflora
contrária aos teus preceitos,
vãs normas e preconceitos:
Inaceitada canção,
ancha, cheia de emoção,
embora só vejas defeitos.
E apesar de tanto laço
as língua desembestou,
lembeu o linguar do dotô,
sorveu os tempero do Lácio,
freveu, se cuspiu no espaço
quebrando regras e grilhões,
infectando mansões
e a alta literatura,
Manchando de Assis, com candura
a língua dos camaleões.
Não diga feia, dotô,
a língua de um Sivirino,
do pai do pai do menino
que não fala igual o avô.
Não a julgue inferior,
estropiada e sem sal.
Língua feia, afinal,
é a língua que difama,
que censura, que engana
e diz que injustiça é formal.
Não diga tosca, então,
o meu pru quê, meu pru mode.
Meu brasilês muito pode
nos despoder do teu não.
Inda que sem premissão,
sem prestigio e sem parar
segue a língua a inundar
com razões, mas sem comande
E o povo, assim, se linguando
pru cá, pru qui, pruculá.
Não diga que a língua é rude
por neologipalavrões.
Deixe-a fluir sem sanções,
deixe que ela, em si, se mude.
Abaixo toda atitude
do gramatismo impotente
de um português excludente
que esnoba o cidadão,
que condena, sem perdão,
o meu falar diferente.
Meu linguajar passarinho
teu dicionar passará
inda que queiras calar
nas margens dos descaminhos
do teu palavrês mesquinho
toda a beleza e essência.
Viva a desindecência
da voz desprestigiada,
rica, fala enraizada.
Viva a voz da experiência!
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