Uma lapada
de cana
Põe a bola
pra pensar
Freve a
caldeira do verbo
Faz a língua
desatar
Dá ao poeta
o poder
De devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Se lhe
atiçar a morena
Se a galega
lhe atentar
Se lhe pedem
verso as duas
Para que se
aperrear?
É as duas
atender
E devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
O poeta pega
o mote
Rima sem
pestanejar.
Das histórias
do universo
Aos segredos
que há no mar
Tudo é tema
ao seu fazer
De devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Quando o
assunto é desafio
Não se pode
gaguejar,
Mas não
precisa carreira:
Pra a
palavra aflorar
Deixa o
verso florescer
Pra devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Deixa
letrado na lama
Quando começa
a falar
Tira de onde
não tem
Pra por onde
se encaixar
A sua arte e
dever
De devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Pega doutor
e dá sova
De cultura e
linguajar
Não precisa assessoria
Para um
verso improvisar
Faz verso
pelo prazer
De devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Mas nem tudo
é alegria...
Há quem o
queira calar
Se ele
pisunha nos calos
De algum
tirano que há
Só por livre
querer ser
E devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Inda assim,
o menestrel
Sabe o choro
disfarçar
Empurra sonho
no povo
Pra ver tudo
incendiar
Até na luta
o seu ser
Vai devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Salve, ó
antena do povo!
Salve o
astuto olhar!
Salve o
canário sem dono
Que sob o
sol ou luar
Registra tudo
que vê
Pra devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Viva os vates
das mil serras,
Mestres de
versos sem par
Benza Deus,
estes poetas,
Dê-lhes
arte, engenho e amar,
Nunca lhes
falte o saber
De devagar,
sem correr,
Discorrer
sem divagar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário