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EFEITOS ALEATÓRIOS

04 abril, 2012

POETA DO POVO “Devagar, sem correr, discorrer sem divagar”


Uma lapada de cana
Põe a bola pra pensar
Freve a caldeira do verbo
Faz a língua desatar
Dá ao poeta o poder
De devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Se lhe atiçar a morena
Se a galega lhe atentar
Se lhe pedem verso as duas
Para que se aperrear?
É as duas atender
E devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

O poeta pega o mote
Rima sem pestanejar.
Das histórias do universo
Aos segredos que há no mar
Tudo é tema ao seu fazer
De devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Quando o assunto é desafio
Não se pode gaguejar,
Mas não precisa carreira:
Pra a palavra aflorar
Deixa o verso florescer
Pra devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Deixa letrado na lama
Quando começa a falar
Tira de onde não tem
Pra por onde se encaixar
A sua arte e dever
De devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Pega doutor e dá sova
De cultura e linguajar
Não precisa assessoria
Para um verso improvisar
Faz verso pelo prazer
De devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Mas nem tudo é alegria...
Há quem o queira calar
Se ele pisunha nos calos
De algum tirano que há
Só por livre querer ser
E devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Inda assim, o menestrel
Sabe o choro disfarçar
Empurra sonho no povo
Pra ver tudo incendiar
Até na luta o seu ser
Vai devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Salve, ó antena do povo!
Salve o astuto olhar!
Salve o canário sem dono
Que sob o sol ou luar
Registra tudo que vê
Pra devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

Viva os vates das mil serras,
Mestres de versos sem par
Benza Deus, estes poetas,
Dê-lhes arte, engenho e amar,
Nunca lhes falte o saber
De devagar, sem correr,
Discorrer sem divagar.

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