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EFEITOS ALEATÓRIOS

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10 setembro, 2015

( )

meu corpo, teu corpo
corpo adentro
termos úmidos
unidos pela língua
palavra escrita uma n’outra
de sentido oculto na carne lida por dentro
letras exalando muco e sêmen...
poesia...
cópula de monossílabos
sintagmas candentes
dedos entre as três sílabas
tudo é tônico, explosivo,
lascivo...
exclamação entre as aspas
língua bebendo o parêntese
verbo entupindo a garganta
e ao fim que nunca termina
sons guturais
verbos irregulares
procurando o infinitivo
quer(er), ir, ar...

21 setembro, 2014

DAS TRANSPARÊNCIAS PAIZAIS

Há paz
Em algum lugar, há
Talvez no rumo do rio
Na velha barca que vai
De encontro às correntezas
Percutindo descertezas
Há paz em algum lugar
Talvez onde eu me deixei
N’alguma curva do rio
Decerto ao fundo vazio
Nas transparências de lá
Ah, paz...
Há paz
Em algum lugar
Nas frias ondas de ar
De banzos, sonos, marolas
Barrancos, redes, gaiolas
Donde a mãe d’água a cantar
Arpoa a mim
Negro rio
Dizendo-me em desafio
Há paz
Em todo lugar.

(em Petrolina/PE, 21/09/2014)

02 setembro, 2014

QUANDO CALA UM PASSARINHO - Para o poeta João Paraibano (In Memoriam)

Grita a dor, berra a tristeza
Foi-se embora o menestrel
E a cantoria do céu
Ganhou mais brilho e pureza.
O cantor da natureza
Hoje só rima a saudade
Fica pobre a humanidade
Sem o ouro do seu pinho
Quando cala um passarinho
Cala toda a liberdade.

ANIMAL FARM (perdendo a mão)

Você diz não saber como
Repartir o que é comum
Pega um, lasca por dois
E o salário é de nenhum
Mas pra paga de si mesmo
Faz a conta do bebum:
Paga a dois, preço de quatro,
Pelo serviço de um.

25 agosto, 2014

BEQUADRO

Ninguém beijou-me a fria testa, enfim,
Após o derradeiro acorde dissonante
Quando em silêncio o amargo clarim
Quedou-se à negra caixa e, nesse instante,

O bom maestro recolheu a banda
Que não se enterra e a guardou no bolso
Mas nenhum anjo, se a virgem não manda,
Acolhe aos cantos o anjo mais moço

Que destoou no primeiro compasso
E quando o mestre levantou seu braço
Mostrando o Coda após o Sinal

Fechou os olhos em contemplação
E fez da vida u’a improvisação
E bateu forte na barra final.

15 agosto, 2014

BAXÔ O GREG

Livrai-me, Sr. são, Gregório
Ou qualquer outro que haja
De tão graciosa naja
De olhar tão merencório

Protegei-me do incensório
Da vaja e seu doce sal
Desse suco angelical
Que inundou meu oratório

Mas antes da salvação
Dai-me que eu sinta a sua mão
Mesmo com as garras que traz

Depois, fulminai-me o instante  
Logo que eu provar bastante
De tão belo satanás.

13 agosto, 2014

POEMA 1.209.141

Faz de conta que é agora...
Dá-se um beijo entre nós
Tive, tenho a lua e asas
Nave-beijo é mais veloz.

Eu em tua nave rósea
teço a seiva e em teus segredos
anjo. E tendo findo o sonho,
morto, acordo entre meus medos.

N’OCO

Estações, sites, canais
Parabólicam grunhidos
Poetais, descoloridos...
Avenidas avernais.

Com tais últimos sinais
O poeta silencia:
Sem um verbo que o aqueça...
Sem poesia na cabeça
Nem cabeça pra poesia.

09 agosto, 2014

D’EMBRULHOS

Ressaquinha aniversal...
Mazelinha renitente
Bate aquela deprê (zinha)
Por um motivo, somente:
Ter que esperar mais um ano

Para, de novo, ser gente.

20 maio, 2014

DA CAVERNA (Ame-a ou deixe-a)

Quem vive em cova é semente
Defunto, ou morto que o valha
Quem canta a morte é a gralha
Do mausoléu de dormentes
Quem vive morto e contente
Não é vivente, é zumbi
Mas se um da tumba emergir
Leva dos mortos pedrada
Um boi que é contra a manada
Não vale nada ali.

04 dezembro, 2013

SONETO DE MÃO QUEBRADA


- Quem pensas ser diante de um luzeiro
que tanta noite incendiou comigo?
Exijo honras ao meu companheiro.
Porque persegues meu incauto amigo?

O teu intento intolerante e antigo
que insiste desde o acorde primeiro
em suas cordas não terá abrigo.
Que são mordaças ante o bom guerreiro?

Porquanto és grosseiro e mordaz
farás de tudo pra calá-lo, mas
vate que sou não darei permissão.

Hei de soar com ele e mesmo quando
rondar-me a foice morrerei gritando:
vai-te, silêncio, do meu violão!

28 junho, 2013

MISSIVA CATINGUEIRA (A Bizunga e o Facheiro)

Me perdoe meu amor
Pelo meu amar tão bruto,
Meu carinho diminuto,
Peito pouco acolhedor.
Sabe Deus, meu confessor,
Que apesar dessa rudeza
Há um tanto de pureza
Por detrás dos meus espinho.
Em meio ao meu desalinho
Tente ver que eu te amo,
Que por tua brisa clamo
Para mover meus moinho.

O beija-flor do sertão
Faz seu ninho na urtiga,
Entre espinhos se abriga
De cobra, rato e furão.
Ô, meu amor, chore não
Se em mim tu se espinhar,
Pois quando a seca passar
Serei chuva de carinho
E tu, bizunga no ninho
Tal qual santa num altar.

Sou facheiro seco e antigo
Espinhando quem me abrace
Mas meu bem, é só disfarce
Pra espantar os inimigo
Do nosso amor e eu te digo:
Se minha casca endureceu
E entre espinhos se escondeu
(Queira Deus tu entender)
Foi só para proteger
Esse amor que é só seu

Bizunguinha, se ainda assim
Pra longe tu quis voar
Secarei a te esperar
Nessa caatinga sem fim.
Quando puder pense em mim,
No meu espinhento amor
Que hoje causa tanta dor,
Mas já foi teu passarinho.
Assinado, com carinho,
Teu facheiro beija-flor.

26 junho, 2013

O JOIO

Futucando pela rede
Da atual sociedade
Vê-se muita vaidade
Muita água e pouca sede
Tem esperto que diz: “vede,
Sou contra a corrupção!”
Mas vive metendo a mão
No alheio e no erário
Fascista, reacionário
Gritando revolução.

Se assim é em todo canto
Não sei ao certo dizer
Mas pelo que pude ver
É assim no meu recanto
Vai se fazendo de santo
O elitista babão.
Apoiador de ladrão
Fazendo o povo de otário...
Fascista, reacionário
Gritando revolução

Vai engolindo propina
O falso idealista
Sempre no topo da crista
Seguindo qualquer doutrina
Que o leve a sacra mina
Das tetas da situação
Traz a bandeira numa mão,
Na outra o furto diário
Fascista, Reacionário
Gritando revolução.


Tal salafrário é um misto
De Judas com Calabar
Traindo por só pensar
No próprio bolso, e nisto,
Com um braço abraça o cristo
Com o outro abarca o cão
Diz que está com o povão
Mas por trás diz o contrário
Fascista, reacionário
Gritando Revolução.

25 junho, 2013

R$ 6,66

Quando digo que o mundo
Tá perto de se acabar
Alguém vem me esnobar
Me chamar de vagabundo
Mas não calo um só segundo
E repito outra vez
Que não finda esse mês
Tudo quebra na emenda
Sabe o preço da contenda?
Seis réis e sessenta e seis.

Uma guerra por tão pouco?
Alguém pode perguntar
Mas quando o mundo quebrar
Vamos ver quem é o louco
Vão se fazendo de mouco
E eu rindo de vocês
Um povo que por rudez
Se vende por mixaria
Pela tal baixa quantia:
Seis réis e sessenta e seis.

Quando o dinheiro reinar
Ninguém vai passar batido
Não há nada de escondido
Que não se mostre ao olhar.
Quem só viveu pra juntar
Vai perder de uma só vez
Lucro, vida e talvez
Para fugir do terror
Venda sua alma por
Seis réis e sessenta e seis.

O mesmo preço é tabela
Par quem quer vender a fé
E pra quem quiser até
Ganhar dinheiro com ela
Numa única parcela
Você fica na nudez
Vende o fundo o voto e a vez
Em troca do que não presta
Pelo preço em tua testa
Seis réis e sessenta e seis.

Quem ganhou o mundo inteiro
E perdeu a própria alma
Traz ardendo em sua palma
O seu último dinheiro
O resto foi pra o cinzeiro
Quando sua estupidez
Quebrou o mundo de vez...
Da sua suja abastança
Só lhe sobrou por lembrança
Seis réis e sessenta e seis.

Se o preço da tua luz
Valeu meia, meia, meia,
Se faltou na tua candeia
O querosene da cruz
Não queira chamar Jesus
Pois se a venda você fez
Só o zarapêi talvez
Saiba do seu endereço.
Veja como é alto o preço:

Seis réis e sessenta e seis.

09 agosto, 2012

NA REAL


Sonhar pra que?
Se o mundo é dos pesadelos
Sonhos não irão detê-los.

07 agosto, 2012

BANDEIRAS


Ordem!
... Apenas sobre os fracos
Progresso!
... Onde? De quem?
Justiça!
... Descabaçada...
Palhaçada!
Triunfo...
Apenas o nome de uma cidade.

MEIA-NOITE


Neste obscuro sertão
Que falta faz um Lampião
Neste estado de risco
Por onde anda Corisco?

31 julho, 2012

MATUTOS URBANOS

Vivo enfurnado na brenha
Lá da serra triunfense
Mas não me julgue, não pense,
Não me condene, nem venha
Com sua língua ferrenha
Dizer que sou um inculto
Sem modo e sem atributo
Preste atenção nesse fato
Só porque moro no mato
Não pense que eu sou matuto

Não gosto muito de festas
Dessas que tem na cidade
Mas por curiosidade
Resolvi ir uma destas
Estava um frio das mulestas
Era o tempo do inverno
Pode escrever no caderno
O que agora vou contar
Vi matuto pra danar
Naquele forró moderno

Botei um terno novinho
E meu casaco de lã
De procedência alemã
Além da calça de linho
Fiquei lá em meu cantinho
Olhando jovens passando
Era o chuvisco torando
E o povo quase despido
Eita, moda sem sentido
Essa que estavam usando

Os jovens achando graça
Do meu vestir demodê
E eu tentando entender
Tanto palhaço na praça
Deve ser uma desgraça
Ser escravo do modismo
Ter que aderir ao nudismo
No frio e achar bonito
E tome frio no cambito
E agressão ao organismo

Um rapaz todo molhado
Riu do meu terno e gravata
Ele com blusa regata
E eu bem agasalhado
Ele todo afrescalhado
De calção naquela chuva
E eu de bota e de luva
Sendo tema de chacota
Pobre daquele idiota
Se achando o mandachuva

Para evitar bate-boca
Do rapaz me afastei
Foi quando me deparei
Com outra cocóta louca
Que me falou quase rouca
Saia da frente, matuto
Não rebati o insulto
Pra mostrar educação
Pois vim pra festa e não
Participar de um tumulto

Mas vou falar da menina
Pois chamou minha atenção
Sua triste aparição
Bem no meio neblina
Toda encolhida e mofina
Mas vestindo costa nua
Manquejando pela rua
De salto no calçamento
Se achando um monumento
Na inocência só sua

Mais incerta que o destino
A saia que ela vestia
Além da popa se via
O coração e o intestino
E aquelas pernas, menino,
Roxas, tortas e geladas
No freezer das madrugadas
Eram picolés sem gosto
Pra combinar com seu rosto
E suas mãos enrugadas

Sua blusa, fino afã
Sem manga, mas com decote
Que deixava ver o dote
Dos seios sem sutiã
E os peitos da cidadã
Embora murchos, acesos,
Com seu dois biquinhos tesos
Das mamadas do arrepio
Ia tremendo de frio
Cruzando os braços obesos

Nem pra dançar o forró
Aquele traje ajudava
Pois toda vez que dançava
Seu tamanco alto que só
Dava nas pernas um nó
Então a blusa caía
Ou o saiote subia
Mostrando mais que o balé
A embalagem e até
A fina mercadoria

Dou valor a um decotado
E um buxinho de fora
Mas tem o canto, a hora
E o clima apropriado
Se é verão, vou danado
Ver as mocinhas no poço
Mostrando o umbigo e o dorso
Mas no inverno é diferente
Aconselho francamente,
Roupa de frio, seu moço.

Mas pra seguir a tendência
E poder compor a roda
Vale o que reza a moda
Mesmo sem inteligência
Não entendo essa ciência
Fico até estupefato
Quando me chamam de pato
E esnobam meu figurino
Dizem que é desatino
De quem reside no mato

Vestir uma minissaia
Pra seguir a procissão
É tal qual usar gibão
Pra frequentar uma praia
Merece é riso e vaia
Minirroupa na frieza
Onde é que fica a beleza
Da roupa inadequada
Dessa moda estropiada
Que me olha com estranheza?

Se você também já viu
N’alguma festa ou lugar
Em um calor de lascar
Alguém com roupa de frio
Que o seu casaco vestiu
Só pra mostrar que é seu
Se no frio também sofreu
Por pouca roupa trazer
Então não venha dizer
Que o matuto sou eu.

20 julho, 2012

TODA HORA É DIA DO AMIGO


Amizade é coisa escassa
No escarcéu dessa vida
Já amizade fingida
Há aos folotes na praça
Mas basta uma desgraça
Pra o falso amigo fugir
Só então verás surgir
O amigo verdadeiro
Que te dará por inteiro
Amizade sem medir.